Agro-Ocupação: um mural que transforma história em visibilidade
Trabalho do artista Jerci Maccari muda o ambiente escolar e leva arte até a periferia.
No mês de março de 2026 o artista plástico Jerci Maccari finaliza seu projeto Agro-Ocupação, com a instalação da placa de identificação do mural pintado na EMEB Horácio de Salles Cunha, no Jardim São Bento do Recreio.
Quando iniciou o projeto, em 2025, Jerci não estava apenas pintando um mural. Estava registrando uma história viva de Valinhos. A obra retrata a paisagem, os personagens e o cotidiano do Acampamento Marielle Vive, do MST, localizado na Estrada do Jequitibá. Um território que muitas vezes é falado de longe, mas pouco conhecido de perto.
O Projeto Agro-Ocupação foi selecionado no Edital 005/2024 da Secretaria de Cultura de Valinhos/SP, vinculado à Política Nacional Aldir Blanc (Termo de Execução Cultural nº 20/2024). A proposta do projeto foi levar para a escola pública da periferia da cidade um pouco da realidade de parte dos alunos da própria escola, que residem no acampamento.
A finalização da pintura, ainda em 2025, foi marcada pela exibição do filme “Olhar de Cícera”, que narra o acampamento a partir das conversas de Dona Cícera com outros moradores. Ali, arte e memória se encontram. Não era apenas tinta na parede. Era reconhecimento. Era visibilidade. Era uma escola pública abrindo espaço para discutir território, alimento, dignidade e pertencimento. Jerci não chegou ali por acaso. Filho da roça, criado na agricultura familiar, ele reconheceu rapidamente na rotina do acampamento algo que fazia parte da própria infância. Essa identificação deu à obra uma verdade que não se improvisa. Ele sabe o que significa plantar, esperar a chuva, colher, dividir. Sabe também o que significa resistir.
Coincidentemente, ou simbolicamente, a finalização aconteceu no momento em que foi anunciado o início do cadastramento das famílias junto ao Incra, passo fundamental para a transformação do acampamento em assentamento, conforme projeto anunciado pelo Governo Federal alguns meses depois. Um gesto artístico dialogando com um passo concreto rumo à regularização da terra.
Valorizar a reforma agrária não é ideologia vazia, é defender a produção de alimentos sem veneno, que chegam à mesa da população, e enfrentar a lógica predatória da especulação imobiliária que pressiona territórios como a Serra dos Cocais. A consolidação do assentamento representa mais do que justiça social: é uma estratégia de preservação ambiental, recuperação de nascentes e fortalecimento da capacidade produtiva da terra.
O mural, os alunos envolvidos, o filme exibido e o próprio acampamento fazem parte de uma mesma narrativa: a de que Valinhos é construída por quem trabalha a terra, produz alimento e insiste em permanecer. Enaltecer esse projeto é reconhecer que arte, educação e reforma agrária podem caminhar juntas, e que isso diz respeito a toda a cidade.







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